São 3 anos de capital. 3 anos que eu deixei pra trás minha vida de sessão da tarde, bolo quentinho no final da tarde e café com leite no jantar. O amor conhece razões que a própria razão desconhece, é verdade, não há frase mais brega e verdadeira que essa. E olha, esses meus últimos 3 anos foram equivalentes a muita coisa, vi?
Num dos locais por onde andei, posso dizer que fui bater no ambiente mais hostil que tive contato. A primeira cena que me marcou (e rende risadas depois de passado o perrengue até hoje) foi uma criatura encaralhada numa sala, procurando deussabeoquê, sacudindo tudo que era caixa no chão, reclamando e bufando que nem um touro. Em tempos de sanidade, eu teria saído correndo de perto daquela doida, mas sabe-se lá por qual conjuntura astrológica, eu acabei resolvendo pra ver no que dava. Cheguei do interior, sem um treinamento sequer e me meti nesse mundo estressante ao extremo, que me fazia chorar diariamente quando chegava na casa da minha sogra (sim, porque eu achei pouco e ainda fui morar com a minha sogra, que obviamente não fazia jus ao estereótipo. Beijo, sogra, te amo, tá?)
Foi a pior experiência da minha vida. Juro. Aconteceu de um tudo: conheci gente escrota, trabalhei que só um jumento de carga, fui humilhada, fui o pior que eu poderia ser. Quase me rendi ao capitalismo insano que não sabe tratar gente como gente e que não vê limites às aflições que pode submeter uma pessoa. Tive os piores domingos da minha. Não que domingo seja um dia dos melhores, mas os meus eram aterrorizantes. Tempos depois, por conta do MBA, descobri que se tratava da
Síndrome do Fantástico, que, no meu caso, não precisava chegar a tanto, poderia ser até chamada de Síndrome da Turma do Didi, pois na hora que eu acordava, já tinha vontade de morrer. Sem noção.
Mas digo, da altura da minha desgraça, que foi o melhor aprendizado que tive. Também conheci gente da melhor qualidade, vivi situações de desconforto sem surtar na batatinha, ouvi verdades que me doeram e, sobretudo, aprendi a lidar com momentos impróprios, difíceis, de pressão. Foi a pior experiência para a melhor escola. Lá, eu percebi que tudo que meu pai me dizia fazia todo sentido. Lá, eu percebi que as lições de humildade da minha mãe eram raras. Lá, eu vi que eu era uma criança de escola primária, querendo lidar com gente pós-doutorada em mercado.
Bastou uma frase e a conjuntura astrológica se desfez. Segundo minha terapeuta, essa frase foi tão marcante que até hoje eu carrego as consequências dela. "Não sei porque o estresse, aqui é de senso comum que o que você faz é feito por qualquer um, qualquer pessoa..." Nas entrelinhas, eu li na testa da minha interlocutora: você não é nada, Fabiana, vo-cêêêê, não é nada, não pense o contrário, eu vou humilhar você e você vai continuar sendo nada. Nesse momento, eu vi todos os dias que eu trabalhei das 9 da manhã até às 9 da noite, com 10 minutos de almoço, sem intervalo, acumulando funções, aguentando piti e sem nenhum salário que justificasse um esforço tão grande. Não respondi. Saí de lá com o nariz sangrando pra ouvir um médico dizer que eu estava com picos de estresse. Atestado na mão, 5 dias sem trabalhar, tempo necessário pra conjuntura astrológica se fortificar e tomar a decisão de sair.
Aí algum parco leitor dessa bosta me pergunta: mas por que demorou tanto? Sei lá, vai ver era alguma expiação que eu precisava passar. Tipo, karma mesmo, sacomé? Naquele dia, naquele momento, eu liguei o primeiro foda-se da minha vida. E foi libertador.
Saí sem brigar por nada, sem nenhum plus de assédio moral, sem PL, sem PN - porra nenhuma. Mas recebi uma proposta de trabalho de gente decente que nunca tinha me conhecido antes e que só me conhecia do trabalho que eu havia desenvolvido naquele ambiente desgraçado. Foi minha salvação. Ainda passei muito perrengue, mas isso é história pra outro post, por hoje chega.
Vou ali cuidar da minha panela de macaxeira, que já já o cônjuge chega da aula e eu, como boa esposa, tenho que botar o jantar, afinal meu pai me disse no dia que eu casei que eu cuidasse direito do meu marido. Eu, como boa filha, fiz que sim com a cabeça e nem ousei discordar. Das outras vezes que discordei, acabei numa cidade estranha, com gente esquisita e tomando lição de vida pra ninguém botar defeito.
É isso.